Uma medicina sem psicanálise nem Prozac? A revolução de David Servan-Schreiber

David Servan-Schreiber começou por seguir a via da ciência pura: doutoramento em ciências neurocognitivas orientado por Herbert Simon e James McClelland, mergulhando no estudo das redes neuronais e dos mecanismos cerebrais que geram pensamentos e emoções. Contudo, ao regressar à prática clínica para completar a especialidade em psiquiatria, sentiu-se deslocado. Os médicos com quem devia aprender pareciam-lhe “demasiado imprecisos”, empíricos, mais interessados em receitas do que em bases científicas e em questionamento rigoroso.

Na Universidade de Pittsburgh, no departamento de psiquiatria de Shadyside — um centro muito bem financiado e orientado para a investigação — Servan-Schreiber obteve subsídios do National Institutes of Health e de fundações privadas e montou um laboratório para investigar doenças mentais. Foi aí que duas experiências mudaram a sua visão e a sua carreira.

A primeira foi uma viagem a Dharamsala, na Índia, para trabalhar com refugiados tibetanos — cidade associada ao Dalai Lama — onde constatou o uso eficaz da medicina tradicional tibetana: diagnóstico por palpação do pulso e inspeção da língua/urinas, tratamentos baseados em acupunctura e plantas, com resultados em doenças crónicas (depressão, ansiedade, perturbação bipolar, stress) semelhantes aos da medicina ocidental, mas com menos efeitos secundários e muito mais baratos. A segunda foi um caso pessoal: uma amiga de infância recuperou de uma depressão grave depois de recusar medicação e fazer um tratamento com uma curandeira que usava uma técnica de relaxação próxima da hipnose para reviver emoções recalcadas — meses depois estava mais do que “normal”. Para alguém formado em neurociência e psiquiatria, aquilo foi chocante e humilhante: nunca lhe tinham mostrado resultados tão espectaculares nem sequer lhe tinham falado desses métodos.

A partir daí Servan-Schreiber abriu o espírito a abordagens “heréticas” do ponto de vista da medicina ocidental. Descobriu que várias técnicas naturais e corpóreas eram mais suaves, económicas e muitas vezes mais eficazes — e que todas exploravam mecanismos naturais de autocura do cérebro e do espírito. Reuniu sete abordagens que passou a usar na sua prática; todas foram sujeitas a avaliações científicas rigorosas e publicadas em revistas internacionais de referência, embora o seu uso clínico continuasse marginal por falta de compreensão dos mecanismos que explicam os seus efeitos.

Os princípios centrais que ele defende

  • Há um “cérebro emocional” dentro do cérebro — com arquitetura, organização celular e bioquímica diferentes do neocórtex. Funciona muitas vezes independentemente da linguagem e da razão: não se manda uma emoção desaparecer como se ordena uma ideia.
  • Esse cérebro emocional regula o bem-estar psicológico e controla funções corporais (coração, tensão arterial, hormonas, digestão, sistema imunitário).
  • As perturbações emocionais derivam de disfunções desse cérebro, muitas vezes produzidas por experiências dolorosas passadas que ficam “impressas” no cérebro emocional e continuam a condicionar sentimentos e comportamentos décadas depois.
  • A tarefa do terapeuta é reprogramar esse cérebro emocional para que reaja ao presente e não ao passado — e, para isso, é frequentemente mais eficaz usar métodos que atuam diretamente sobre o corpo do que confiar exclusivamente na linguagem e na razão.
  • O cérebro emocional tem mecanismos naturais de autocura comparáveis à cicatrização de uma ferida — os métodos corporais beneficiam desses mecanismos.

As sete abordagens — o que são e como atuam

1) Coerência entre coração e cérebro (exercício respiratório)

Um protocolo simples e poderoso para estabilizar o sistema nervoso autónomo:

  1. Voltar a atenção para o interior e deixar de lado as preocupações por alguns minutos.
  2. Respirar duas vezes, lenta e profundamente; prolongar a expiração e fazer uma pausa de alguns segundos antes da inspiração seguinte (a paz surge com o fim da expiração).
  3. Após 10–15 segundos, focar conscientemente a atenção no coração — imaginar que se respira através do coração; visualizar cada inspiração e expiração a atravessá-lo.
  4. Ligar-se à sensação de calor/expansão no peito e encorajá-la evocando um sentimento de reconhecimento ou gratidão que inunde o peito.

Esta coerência cardíaca repercute-se rapidamente no cérebro emocional e estabiliza o sistema nervoso autónomo. Praticada cinco dias por semana, 30 minutos por dia durante um mês, a taxa de DHEA (a “hormona da juventude”) aumenta 100% — segundo o texto.

2) EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares)

Método para traumas:

  • Evoca-se a memória traumática com todas as suas componentes (visual, emocional, cognitiva, física).
  • Enquanto a imagem é evocada, o paciente acompanha com os olhos a mão do terapeuta que se desloca rapidamente da direita para a esquerda durante pelo menos 30 segundos até 1 minuto, em várias séries. As sessões devem durar no máximo 15 minutos.
  • A teoria: existe um mecanismo interno de digestão dos traumas que, por algum motivo, ficou bloqueado. Os movimentos oculares semelhantes ao REM ajudam a activar o sistema adaptativo de processamento da informação, acelerando o término do processamento que o cérebro não conseguiu completar sozinho.

3) Simulador da aurora (simular o nascer do dia)

Um aparelho ligado ao candeeiro de cabeceira aumenta lentamente a luz antes da hora de acordar — mesmo com olhos fechados, o cérebro recebe o sinal que desencadeia suavemente a transição do sono: o hipotálamo ativa a secreção diurna de cortisol e a subida da temperatura corporal, permitindo um despertar mais natural, sem rupturas abruptas do ciclo do sonho.

4) Acupunctura

Aponta-se a acupunctura como uma técnica que atua sobre o corpo de forma direta e influencia o cérebro emocional, sendo utilizada com sucesso em várias perturbações crónicas.

5) Óleo de peixe (ómega-3)

Os ácidos gordos essenciais (EPA e DHA) são componentes fundamentais das membranas neuronais: gorduras saturadas tornam as membranas mais rígidas; gorduras polinsaturadas (líquidas à temperatura ambiente) tornam-nas mais fluidas e a comunicação neuronal mais estável. Para efeito antidepressivo, indica-se 2–3 g por dia de uma mistura de EPA e DHA; é preferível um suplemento que contenha vitamina E, vitamina C e selénio para evitar a oxidação dos ómega-3 no organismo.

6) Exercício físico

Melhora o sistema imunitário (células NK) e depressões/ansiedades através da produção natural de endorfinas — o cérebro emocional tem múltiplos recetores de endorfinas. Mesmo quantidades moderadas e regulares são eficazes: 20 minutos, três vezes por semana são suficientes como mínimo.

7) Comunicação não violenta e aprofundamento das relações

Técnicas para reduzir conflito e solidão emocional:

  • Substituir juízos por observações objetivas e falar em primeira pessoa (começar frases por “eu”).
  • A sigla OLA CEE resume seis pontos-chave:
    • O: Origem — falar com a pessoa certa (que pode agir).
    • L: Lugar — escolher um local calmo e privado.
    • A: Abordagem amigável — iniciar de forma positiva.
    • C: Comportamento objetivo — descrever factos sem juízos.
    • E: Emoção — dizer como nos sentimos (ex.: “senti-me magoado”).
    • E: Esperança desiludida — explicar a necessidade ou a expectativa frustrada.
  • Para ouvir melhor, usar QEOFE:
    • Q: Que aconteceu?
    • E: Emoção — que emoção sentiste?
    • O: O que foi mais difícil para ti?
    • F: Fazer face — o que te ajuda a lidar com isso?
    • E: Empatia — exprimirmos com palavras sinceras o que sentimos ao ouvir o outro.

Estas práticas visam não só aliviar a dor mas sobretudo partilhar o fardo, reduzindo a solidão que acompanha a maioria dos sofrimentos.

Conclusão — uma medicina sem psicanálise nem Prozac?

Servan-Schreiber descreve o surgimento de uma nova medicina das emoções — uma medicina que não se limita à psicanálise nem à farmacologia (Prozac), mas que integra técnicas corporais, nutricionais, psicoterapêuticas e relacionais, apoiadas por investigações científicas. Trata-se de reativar os mecanismos naturais de autocura do cérebro emocional e do corpo para tratar depressão, ansiedade, trauma e stress crónico — de forma mais suave, mais económica e, muitas vezes, mais eficaz.

 

Sugestão de leitura:

https://www.fnac.pt/Curar-David-Servan-Schreiber/a258016?origin=google_pla_livro&gad_source=1&gad_campaignid=195500900

 

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